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Por que o Futebol Feminino não passa na TV? CBF deve reconhecer sua responsabilidade no desenvolvimento cultural e comercial da modalidade

Foto de: http://torcedores.uol.com.br
Há muitos anos uma das grandes reclamações de quem acompanha e de quem joga futebol feminino ou futsal no Brasil é a falta de espaço nos canais de televisão aberta e fechada (Tv por assinatura), onde raros são os jogos transmitidos.

Já foi bem pior para o futebol de campo feminino, mas com o Campeonato Brasileiro Feminino a modalidade ao menos ganhou um pouco mais de espaço,  mesmo este sendo pequeno e na TV fechada, também com jogos da Seleção e torneios como a Libertadores Feminina com transmissões de SporTV e Esporte Interativo.

Apesar disso ainda estamos muito longe de um ideal. E para o futsal feminino do Brasil, é pior ainda.

Então vamos questionar e tentar responder estas questões!


Por que o Futebol Feminino não passa na TV?


A transmissão de um jogo de futebol ou de um evento na TV, seja ela aberta ou fechada, depende de uma série de fatores. A TV se tornou um grande negócio (onde tempo é dinheiro, literalmente) que explora a visibilidade dos conteúdos em sua programação para a venda de espaços comerciais (propaganda e merchandising) de acordo com o interesse dos anunciantes e do público nos conteúdos e horários contidos nas grades de programação.

Além deste fator determinante, existem ainda pesquisas de mercado, análise dos níveis de audiência e interesse do público para definir o que vai ao ar nas emissoras. 

Como sabemos, mesmo sendo amantes da modalidade,  a realidade é que o futebol das mulheres ainda não é organizado e atraente o suficiente para gerar o retorno que emissoras e anunciantes esperam por uma série de fatores culturais e gerenciais da modalidade, mas também por um futebol de nível técnico baixo.

Percebam que o interesse pelo futebol feminino e seu consumo/transmissão é algo muito mais complexo do que aparenta ser.

O que falta para o futebol feminino se tornar comercialmente interessante para a mídia? 

Uma enorme fatia de responsabilidade é sem dúvida da entidade que gerencia a modalidade no nosso hipócrita "país do futebol". Não existe nenhum aparente interesse em criar ações sociais e culturais que venham a, gradualmente, mudar a visão cultural que existe sobre a mulher na prática do futebol e sobre o espaço da mulher na sociedade.

A observada falta de atitude nesse sentido ao longo dos anos, dá a entender de forma subliminar que a CBF espera que em algum momento, por sorte ou casualidade, o futebol feminino se torne interessante para a mídia e investidores, e consequentemente financeiramente interessante para a própria entidade para que então ela tenha preocupação em gerenciar, mas não existe nenhum planejamento ou desenvolvimento que demonstre que a Confederação Brasileira de Futebol  (CBF) está se esforçando para tornar o futebol feminino um produto.


O que poderia/deveria ser feito para mudar a visão cultural e tornar o futebol feminino atraente para a sociedade, consumidores e anunciantes/patrocinadores? 


O machismo e a violência simbólica contra a mulher são um problema social e cultural do país que interferem diretamente no interesse pela modalidade, bem como na visão que ainda existe sobre a mulher e seus direitos.

O fato de mulheres jogarem futebol ainda é motivo de piadas, injúrias e risadas.

De alguma forma deveria haver uma interação entre CBF (a entidade máxima da administração do futebol no Brasil) e Governo para que juntos e acionando Ministério do Esporte, Educação e Cultura, criassem estratégias de combate à violência simbólica contra a mulher mostrando que mulher pode ser e fazer o que ela quiser. É quase que uma obrigação lógica da parte de quem quer ver seu produto crescer e se tornar comercialmente lucrativo e seria uma obrigação caso houvesse um interesse e  de fato uma preocupação social  com o esporte e suas praticantes que estivesse acima de questões comerciais!

Intervenções culturais e gerenciais, seriam um bem não apenas para o futebol mas para a mulher na sociedade e sem sombra de dúvidas daria aos críticos outra visão sobre a CBF melhorando não apenas sua imagem no Brasil, mas também no exterior podendo lhe render até prêmios pelo combate à desigualdade de gênero e violência contra a mulher.

Comercialmente falando deveria haver um planejamento para a modalidade focando na melhoria da qualidade das competições, desenvolvimento de qualidade da base para uma evolução técnica do jogo e outras questões para tornar aos poucos a modalidade um produto.

O que se sabe hoje é que a entidade não tem interesse em desenvolver a modalidade além de certos "limites" uma vez que a mesma crê que sua responsabilidade com as mulheres no futebol se resume à seleção brasileira, fator que comprova que não apenas a sociedade brasileira está atrasada no que diz respeito à visão que se tem da mulher e suas praticas sociais e esportivas, mas também que existe grande atraso no que diz respeito à noção de seu papel na administração e gestão do futebol e futsal feminino no país.

Mas a culpa da falta de visibilidade/interesse é apenas da CBF?

Imagem ilustrativa
Obviamente que essa resposta é: NÃO!

Dentro do futebol feminino brasileiro criou-se uma cultura de sempre culpar alguém pela pouca evolução da modalidade ao longo dos pouco mais de 30 anos de prática liberada no país, e obviamente que a grande escolhida para justificar as deficiências do esporte é a própria CBF.

Apesar da culpa por uma sua micro visão da CBF sobre suas responsabilidades e apesar da modalidade ser "engessada" pela falta de respaldo administrativo, legislativo e trabalhista, clubes, atletas e treinadores tem responsabilidade em relação à qualidade do futebol apresentado nas poucas oportunidades de aparecer na TV, onde o que vemos é um futebol pouco interessante, com muitos erros técnicos e pouca visão/inteligência de jogo.


Baseado nestas questões observamos que a culpa da falta de espaço na mídia não é da TV/mídia e sim de uma gestão inadequada (ou a falta dela). 

Esse pouco interesse é também reflexo da forma como clubes e atletas apresentam este futebol nas poucas oportunidades que a mídia proporciona, porém este insuficiente nível técnico não pode ser desassociado à pouca estrutura que a modalidade possui e falta ou quase inexistência de trabalho de base que permita às atletas maior refinamento técnico e motor, bem como não pode ser desvinculado das questões culturais que as mulheres enfrentam desde a infância onde são privadas de brincadeiras e atividades que estimulam seu desenvolvimento motor lhes fazendo perder preciosos anos de prática, descobrimento e aperfeiçoamento de gestos fundamentais para um melhor desempenho esportivo na fase adulta. 

Ainda sim, não podemos eximir a responsabilidade de clubes, treinadores e atletas, que devem tentar ao máximo suprir as deficiências e efetuar as correções necessárias para a prática e apresentação da modalidade aos seus consumidores nas poucas oportunidades que são dadas. 

O tema é algo complexo onde é necessária uma visão macro sobre o esporte e suas possibilidades culturais e comerciais, com planejamento, administração da imagem/marca "Futebol Feminino", o que corresponderia à construção e gerenciamento deste produto e marca junto ao  mercado consumidor, desenvolvendo, preparando, acompanhando resultados e revisando os objetivos de acordo com as respostas do produto e do mercado externo a ele.

Enquanto não for criado um plano de desenvolvimento do futebol feminino continuaremos engatinhando lentamente e continuaremos a colocar a culpa na mídia por conveniência ou falta de conhecimento.

Esperamos que em algum momento a CBF aceite e reconheça sua responsabilidade em relação ao desenvolvimento cultural e comercial do Futebol Feminino e não é preciso 20 ou 40 anos de futebol para entender e reconhecer a necessidade de importância disso.

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