Pular para o conteúdo principal

Queremos ver mais mulheres no comando do futebol, mas preços altos de cursos da CBF são obstáculo

Corinne no comando do Clermont - 2ª divisão francesa (Foto: Fred Tanneau/AFP)
Há algum tempo é pregado que não só é preciso de mais atenção ao futebol feminino como também que precisamos de mais mulheres no comando de clubes, seja na gestão ou no comando técnico de uma equipe.

Apesar do desejo de ver mulheres e também uma maior oportunização de conhecimento e formação para mulheres e todos os profissionais do futebol brasileiro, existe um entrave no caminho.

O entrave está nos altos custos para aqueles que desejam buscar essa formação para atuar na área com mais conhecimento e respaldo. 

Hoje, para fazer um curso pela CBF, seja de análise de desempenho ou licenças de treinador ou gestor de futebol, um profissional precisa desembolsar de 2 a 19 mil reais somente de valor de cada curso, fora outros gastos que eventualmente terá no período do curso como hospedagem, transporte e alimentação.

Falando apenas dos cursos de treinador de futebol (licenças), os cursos são dependentes entre si, ou seja, para se tornar treinador profissional, o profissional precisa fazer todas as licenças. Confira os valores abaixo: 

Licença C - Treinador para escolas de iniciação para crianças e adolescentes - Valor: R$ 5.600,00 (cinco mil e seiscentos reais)
Licença B - Treinador para categorias de base - Valor: R$ 7.710,00 (sete mil, setecentos e dez reais)
Licença A - Treinador em equipes profissionais - Valor: R$ 10.550,00 (dez mil, quinhentos e cinquenta reais)
Licença PRO - Treinador em equipes profissionais - Valor: R$ 19.130,00 (dezenove mil, cento e trinta reais)

Em resumo, qualquer pessoa que queira ser treinador profissional, precisa desembolsar apenas R$42.990,00 (quarenta e dois mil, novecentos e noventa reais).

Profissionais de Futebol Feminino e amadores não tem como pagar

Pensando na realidade que vivem profissionais de futebol feminino e amadores Brasil à fora, o preço se torna surreal e exclui bons profissionais deste processo.

O Futebol Feminino brasileiro vive sem nenhuma fiscalização ou regulamentação própria, o que faz com que salários sejam baixos e estruturas sejam ruins em todo país, exceto raras exceções.

Em uma modalidade onde uma atleta que disputa uma Copa Libertadores da América recebe R$250,00(duzentos e cinquenta reais) por mês e profissionais como preparadores de goleiros são sondados por "grandes clubes" do feminino para ganhar R$1.000,00 (hum mil reais) por mês, podemos compreender que dificilmente um profissional teria facilidade em ter cerca de 43 mil reais para investir em sua formação. 

Se profissionais de grandes e tradicionais clubes ganham pouco, imagine quanto ganha um profissional de clube menos conhecido e favorecido, que vive no futebol feminino ou no futebol brasileiro de ajudas e muitas vezes os treinadores, jogadores e todo corpo técnico acaba "pagando para trabalhar" uma vez que não recebe nada ou apenas uma "ajuda de custo" do clube?

Fonte: GazetaOnline
Levantamento da CBF de 2016 mostrava que 82,4% dos jogadores do futebol masculino de clubes profissionais  (23.238 atletas de um total de 28.238) ganhavam menos de R$1.000,00 por mês. Como o futebol feminino é esquecido e negligenciado no Brasil, não há pesquisas sobre a modalidade e seus salários, mas quem conhece e convive com a realidade da modalidade sabe que 90% das atletas ganham até 1 salário mínimo apenas. Dessa forma podemos imaginar que os salários de treinadores e demais profissionais dos clubes também não é alto suficiente para arcar com cursos da CBF.

Se estamos falando de oportunização e inclusão de mulheres no futebol, precisamos atentar que é costumeiro que de turmas de 40 alunos, exista apenas uma mulher realizando algum curso da CBF. Se a proposta para a modalidade é incluir mulheres, a falta de mulheres dentro dos cursos evidencia que o discurso é bonito, mas na prática não funciona da mesma forma.

Algumas mulheres tentam pleitear descontos nos cursos, porém isto é extremamente difícil, chegando a uma redução de somente 10% do valor do curso.

Talvez esteja na hora da CBF repensar seus cursos e valores, criando sistema de cotas e bolsas para profissionais mais desfavorecidos do futebol brasileiro.

Outra coisa que ajudaria muito seria a chancela por parte da CBF reconhecendo outras instituições como formadoras de profissionais do futebol.

Queremos mais mulheres no futebol assim como queremos mais qualidade e formação adequada dentro da modalidade para que ela, seja no masculino ou no feminino, evolua de verdade e passe a incluir mais do que excluir, mas da forma como é feito hoje, os valores também deixam de fora do mercado e da qualificação, muitos bons profissionais que infelizmente não conseguem viver adequadamente do mal gerenciado e fiscalizado futebol brasileiro.

Comentários